quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

à flor da pele - chico b.

O que será que me dá
Que me bole por dentro, será que me dá
Que brota à flor da pele, será que me dá
E que me sobe às faces e me faz corar
E que me salta aos olhos a me atraiçoar
E que me aperta o peito e me faz confessar
O que não tem mais jeito de dissimular
E que nem é direito ninguém recusar
E que me faz mendigo, me faz suplicar
O que não tem medida, nem nunca terá
O que não tem remédio, nem nunca terá
O que não tem receita
O que será que será
Que dá dentro da gente e que não devia
Que desacata a gente, que é revelia
Que é feito uma aguardente que não sacia
Que é feito estar doente de uma folia
Que nem dez mandamentos vão conciliar
Nem todos os ungüentos vão aliviar
Nem todos os quebrantos, toda alquimia
Que nem todos os santos, será que será
O que não tem descanso, nem nunca terá
O que não tem cansaço, nem nunca terá
O que não tem limite
O que será que me dá
Que me queima por dentro, será que me dá
Que me perturba o sono, será que me dá
Que todos os tremores me vêm agitar
Que todos os ardores me vêm atiçar
Que todos os suores me vêm encharcar
Que todos os meus nervos estão a rogar
Que todos os meus órgãos estão a clamar
E uma aflição medonha me faz implorar
O que não tem vergonha, nem nunca terá
O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem juízo

ombros

o que suportar?
que mundo?
pra que?
em nome? em nome?
não.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

o que vi com gosto bom - teatro

In on it

Zoológico de Vidro

Inveja dos anjos

Congresso Internacional do Medo

Comédia do Trabalho

Till, a saga de um herói torto

Mary Stuart

Alma Boa de Setsuan

digo!

e ele disse, finalmente, que não aguenta mais.

sábado, 25 de julho de 2009

fragmentos de "Ella nos arroubos e arredores"

de Anderson Feliciano e Mário Rosa
(...)
Campanhia toca. Entra Rosa.
Ella: Oi. Você?
Rosa: Você tem um cigarro?
Ella: Cigarro?
Rosa: É. Cigarro.
Ella: Não. Eu parei de fumar.
(silêncio)
Rosa: Tá frio né?
Ella: Frio?
Rosa: É. Frio.
Ella: Um pouco.
Rosa: Estou te incomodando?
Ella: Incomodando? Não. Gosto disso.
Rosa: Disso o que?
Ella: De (...) deixa pra lá, é que me lembrei do Pluft. Você conhece?
Rosa: Não. O que é?
Ella: Um livro que li quando era bem criança.
Rosa: Não gosto de ler. Prefiro ver novelas. Mas leio revistas, viu. Não sou uma ignorante.
Ella (Desatenta ao comentário de Rosa): Pluft, em determinado momento, pergunta pra sua mãe se gente existe.
Risos.
Rosa: Como assim?
Ella: É que ele é um fantasma. Um fantasma que tem medo de gente. (Silêncio)
Rosa: Você está bem?
Ella: Eu tenho medo de gente. (Silêncio) Melhor mudar de conversa porque você não me entende.
Rosa: Entender o que?
Ella: Vamos mudar de assunto.
Rosa: Falar então de quê?
Ella: Por exemplo, de você.
Rosa: Eu.
Ella: Por que esse espanto? Você não é gente? Gente fala de gente. (Coloca uma música no som)
Rosa: Bobagem!!!
Ella: Essa música é muito bonita, você não acha? (Começa a dançar)
Rosa: Acho. É um pouco triste. Gosto de coisas trist (...)
Ella: É estranho quando a gente dança e não sente a música. Fica tudo meio sem sentido.
Rosa: Eu gosto de coisa triste.
Ella: A gente dança, dança, tenta. Eu não consigo.
Rosa: (Aparentemente triste) Eu acho que eu já vou.
Ella: Espera. Fica mais um pouco. Quer tentar?
Rosa: Eu? O que?
Ella: Dançar.
Rosa: Está tarde.
Ella: Nunca é tarde (...) Cada instante é único. (Puxa Rosa pela mão e começam a dançar). Você tem medo de que?
Rosa: Medo? Eu não tenho medo de nada. Só de uma coisa.
Ella: De que?
Rosa: Ficar louca.
Ella: Como?
Rosa: Deixa pra lá. (Encerra a dança)
Ella: Por que? O que houve com você? (Sem graça) Você quer comer alguma coisa?
Rosa: Não quero incomodar.
Ella: Não incomoda. Ah, tenho algo que você vai gostar.
Ella levanta e sai de cena, volta com uma vasilha cheia de bolinhos.
Ella: Sonhos! A única coisa que tenho aqui em casa para te oferecer são sonhos. Você quer?
Rosa: Não gosto muito de sonhos (...) acho eles sem graça, sem gosto. O que dá um certo gosto é o recheio. Os seus são recheados com que?
Ella: os meus estão sem recheios. Acho eles puros mais gostosos.
Rosa: questão de paladar.
(...)

segunda-feira, 20 de julho de 2009

TEATRO

o teatro tá vivo. o teatro acontece. o teatro se realiza no pensamento, na criação e no que vai além da memória, pois outras criações, outros pensamentos proliferam.

esse mês duas boas impressões:

- Comédia do Trabalho (Companhia do Latão)



- Till, a saga de um herói torto (Grupo Galpão)


(em invertidos olhares):
da retomada do teatro de rua que se envereda pela "cultura popular medieval" para o teatro épico (ou dialéctico) que retoma o potencial crítico ao desvendar "artimanhas" num exercício de ampla criação e comunicação.

quero mais (...)

quarta-feira, 10 de junho de 2009

...

Tatuagem encobre mistérios? Ou melhor, suscita mistérios? O que de fato revela? Se realmente revela. Não seria somente nossa ilimitada imaginação alargando ruas?Novamente ele atrás das persianas. O olhar fecunda vidas alheias, transfigura - em um campo íntimo - modos, entradas e chegadas, afetos, conflitos, transgressões (...). E ali ele permanece: aberto à indefinidas fabulações, casualmente em confronto ao que supõe ser o bloco do real (em sua concreta banalidade).

alunos

Um movimento repentino pra dentro
(recolhimento).

Um estranho desalojamento no contato com vidas que oscilam.
Será que eles resistem?
Até quando?
Para onde eles vão?
O que os precarizam?
O que os potencializam?
Que cartografia é possível desenhar além dos limites traçado a ferro e fogo?
Meninos e meninas que me despertam uma tristeza e uma doce, sim, uma doce ternura.

Mas ainda é possível dançar (...)
E isso eles fazem acariciando o trágico ainda não percebido

nas suas ingenuidades,
nos seus atabalhoados flertes,
na linguagem que engasga
e na esperança manca.

Os meus, o meu, o eu: comunga, lamenta, revolve, chora o mundo onde o que mais se vê ainda é a redundante performance vazia.

Nos molhe, vida!


segunda-feira, 8 de junho de 2009

maré




Para Waly, Calcanhotto, Maravilha e todos que ouviram Maré.


Lembra o mar

E trás ondas nos lábios

Um azul demarca contornos

Acentua traços
Configuração


Canto e gesto executam partituras

E o ressoar se abre para toda delicadeza
Orquestração


Sons e movimentos

Que pedem passagem
Música


O líquido é pretexto
E essência que deságua

Em fértil poema
Palavras. (pra que?)



Que de uso em uso
De quebra em
quebra



Com o
Saber

perder nas


mãos

Encontra a medida. O trecho antítese do excesso. A imagem que sugere e se refaz. Para além da verbo RRa gia.




Mas o poema não acaba.

Desdobra-se no contínuo das tentativas, das (re)colocações, das (re)adequações.



Em (ré – maior) as palavras insistem em desenhar cartografias.
Melodicamente (...)

Fluxo, fluido, fruído.




Abalos tímidos, quase imperceptíveis ... aos ouvidos.



Ampla a paisagem de muitos retratos.
Caleidoscópio a enquadrar fugidias imagens.

sábado, 9 de maio de 2009

Boal



havia discordânica quanto aos métodos?
à ideologização?
à perda da dimensão estética?
perguntas.
mas algo se torna hoje evidente: ele foi, "no seu jogo para atores e não atores", também indiscutivelmente fundamental.

''Todo mundo é melhor do que pensa que é''

Cerca de um mês antes de sua morte, o diretor Augusto Boal concedeu esta entrevista em Paris
Taíssa Stivanin, PARIS

No dia 25 de março, o dramaturgo, diretor e ensaísta Augusto Boal recebeu na sede da Unesco, em Paris, o título de Embaixador Mundial do Teatro. Poucas horas antes, no hall de um hotel na praça da República, na capital francesa, o criador do Teatro do Oprimido concedeu uma de suas últimas entrevistas. Boal, que morreu dia 2, no Rio, aos 78 anos, tinha chegado a Paris um dia antes de nossa conversa. Fui buscá-lo no quarto. Mancando, ele contou que tinha ordens médicas para não deixar o hospital, mas disse que não perderia a oportunidade de receber o prêmio por nada. Se o dramaturgo estava fisicamente tão debilitado, isso só ele sabia. Seu espírito e sua energia continuavam intactos. Bem-humorado, falante, gesticulando muito, e sem pedir nem um copo de água, o dramaturgo conversou sem se cansar. Desse papo, ficou a mensagem que resume sua vida: "Todo mundo pode fazer melhor do que acha que está fazendo." Seu teatro é a descoberta dessa capacidade.

O SR. ACOMPANHA O TRABALHO DO TEATRO DO OPRIMIDO EM PARIS?

Em Paris acompanho pouco. Meu filho, Julian Boal, integra um grupo que se chama Grupo do Teatro do Oprimido. Existem vários lugares na França que fazem o teatro do oprimido. O movimento Planning Familial (Planejamento Familiar) o utiliza há muitas décadas em seu trabalho. As escolas e as ONGs também. Acompanho como posso. No site internacional do Teatro do Oprimido, existem mais de 50 países nomeados e 200 grupos. Mesmo no Brasil, ele está presente em todos os Estados, menos no Amazonas, Pará e Roraima, pois custa muito caro desenvolver um projeto por causa da distância. O volume de trabalho é imenso, na Índia, na África. Quando algum grupo introduz uma técnica diferente, a gente tenta seguir. No mais, a gente aplaude.

O SR. VAI MUITO À ESCANDINÁVIA? COMO O TRABALHO SE DESENVOLVEU LÁ?

Começou na Suécia há 30 anos. Tinha amigos exilados, que nos anos 70 me convidaram para fazer uma oficina. Fui voltando nos anos seguintes. Durante muito anos fui para a Suécia e a Noruega. Mas agora canso muito se pego avião sempre. Meu filho leva o trabalho adiante. O Julian, segundo ele mesmo, faz o mesmo trabalho que eu, mas muito melhor (risos).

ELE ACREDITOU NO POTENCIAL DELE, E ESSA RESPONSABILIDADE É SUA...

Exatamente, você matou a charada. Dizia para o Julian que ele era melhor do que pensava, ele acreditou. E me respondia: "Sou mesmo." Julian trabalha muito no exterior. Na África, na Ásia. Na Índia, existe a Federação Indiana do Teatro do Oprimido. Em 2006, ela reuniu 12 mil pessoas numa praça em Nova Déli. Foi muito lindo de ver, porque 80% eram mulheres, vestidas com seus saris coloridos.Ver aquelas mulheres resolutas, fortes, gritando slogans, cantando hinos sobre teatro, sobre Arte, foi muito bonito. A Arte, afinal, pertence a elas. O Teatro do Oprimido está espalhado por toda a Índia, pelo Paquistão, pelo Sri Lanka. No Sri Lanka, quando houve o tsunami, eles faziam o arco-íris do desejo no campo de refugiados para tentar entender como ficou a cabeça das pessoas depois de um desastre daquelas proporções. É o que que queremos. Criar multiplicadores criativos. Multiplicar um sistema que já existe.O que importa é para quem você faz. Como aplico esse método para essas pessoas, nesse lugar e com esses problemas?

COMO ESTÁ A APLICAÇÃO DO MÉTODO NOS PRESÍDIOS BRASILEIROS?

A cadeia é o único lugar onde temos problemas para trabalhar, por conta de tanta burocracia. É um trabalho que está parado atualmente, mas tivemos experiências maravilhosas. Havia uma prisão no Estado de São Paulo que parecia um leprosário, ninguém chegava perto de ninguém. Conseguimos trazer os prisioneiros para o meio da praça, usando o teatro-fórum, como se fossem cidadãos livres. Eles entraram em cena e contracenaram com os outros. Deu certo. Os presos aceitaram que estavam pagando pelos crimes que cometeram e voltariam a viver em sociedade se fosse possível. Uma vez fizemos uma peça onde um preso contava sua história, trágica. Ele era inocente e estava preso há dois anos porque não sabia como se defender. Durante sua apresentação, coincidentemente, tinha uma juíza na plateia. Espantada, ela prometeu o alvará de soltura dele e cumpriu. Situações como essas, existem muitas. Numa cadeia paulista onde aplicamos o teatro legislativo, por exemplo, conseguimos fazer creches para as detentas que tinham filhos. O problema é a burocracia. Os funcionários do Depem, órgão que administra as cadeias, são impenetráveis. Na cabeça deles não entra nada. Não compreendem que o que está na lei tem de estar subordinado a um bem maior. Sei que a lei deve ser obedecida. Existe uma lei que diz: é proibido pisar na grama. Não quero pisar na grama, porque acho que é uma lei justa. Mas se uma criança está sendo atacada por um cachorro, você tem de pisar na grama, dar um pontapé no cachorro e salvar a criança. Violar a lei às vezes é necessário. Trabalhamos também com o Ministério da Cultura em 16 Estados, e com o Ministério da Saúde, nos Capes (Centros de Atendimento Psicossocial). Tentamos enquadrar o delírio patológico no delírio estético. Afinal, teatro é uma forma de delírio, uma forma de alucinação.Também trabalhamos em comunidades violentas. A violência ocorre pela obtusidade das pessoas. Alguns continuam nesse caminho, mas outros felizmente entendem que o diálogo é a forma soberana da comunicação.NO CONTEXTO

DA GLOBALIZAÇÃO, DA SOCIEDADE DE CONSUMO, O SEU MÉTODO PODE SER APLICADO DA MESMA FORMA QUE HÁ 30 ANOS OU PRECISA SER READAPTADO LEVANDO EM CONSIDERAÇÃO AS MUDANÇAS SOCIAIS?

O Teatro do Oprimido se torna mais útil ainda nesses novos tempos. Ele é o contrário da globalização, faz parte da mundialização. A globalização é uma pirâmide da desigualdade. No topo, ficam os ricos, as pessoas desonestas, responsáveis pelo crash da bolsa e a crise mundial. A globalização é uma fagocitação, esses ladrões todos querem comer os outros. É uma coisa antropofágica. A mundialização não. Se você tem um saber, você tem de espalhar esse saber. Não pode ser aquele sábio que vive no topo de uma montanha. Isso me lembra uma piada mineira. O homem pergunta: "Senhor sábio, o que é a vida?" O sábio responde: "Meu filho, a vida é um rio." "Um rio?", desconfia o homem. O sábio vacila: "Uai, não é não?" Esses velhos sábios não me interessam. Temos de ser generosos e solidários com os outros e deixar que eles usufruam do seu saber.

PODERIA ESCLARECER UM POUCO AS DERIVAÇÕES DO TEATRO DO OPRIMIDO? TEATRO LEGISLATIVO, INVISÍVEL....

O Teatro do Oprimido é uma grande árvore. Essa árvore tem as raízes na ética e na filosofia de humanizar a humanidade. É a nossa base. Depois começam os jogos, para restaurar a capacidade criativa das pessoas. Em seguida, vêm os diversos ramos da árvore, como o teatro invisível, o teatro legislativo, o arco-íris do desejo, que serve para exteriorizar as opressões internalizadas. O mais usado é o teatro-fórum, que significa colocar um problema e discutir teatralmente esse problema. É a forma mais difundida, porque produz resultados mais imediatos. O arco-íris do desejo requer uma reclusão maior, em grupos pequenos. Trata problemas individuais. Todas as formas de teatro são úteis, têm uma função. O sucesso extraordinário desse teatro, no mundo todo, se deve à revelação de que o teatro não é o palco, não são as luzes, não é um texto escrito necessariamente, não é iluminação, não é nada disso. Teatro somos nós. Cada um de nós traz em si mesmo um ator. Nesse momento, por exemplo, estou sendo ator. Estou agindo e ao mesmo tempo sendo espectador. Estou ouvindo o que estou dizendo, minha voz, estou pensando no que vou dizer. Teatro é isso. Você percebe que pode avançar num sentido que não é aquele previsto pela sociedade, tecnicamente e mecanicamente. Você sai da moldagem e passa a ser você mesmo, descobrindo coisas insuspeitadas. Que você é melhor do que você pensa que é. Todo mundo é melhor do que pensa que é. Todo mundo é mais capaz de fazer o que já está fazendo. Meu teatro é a descoberta dessa capacidade.
O QUE AINDA FALTA FAZER?

Já fiz muita coisa e tenho intenção de fazer muitas mais. Estou terminando um livro que se chama As Estéticas do Oprimido. Muita gente fala de diversidade cultural, o que defendo. Mas quando pensa em estética, pensa em uma só. Como ser diverso culturalmente, com uma só estética, se a estética é produto de uma cultura? Por exemplo, aquele pintor norte-americano, Jackson Pollock. Nos Estados Unidos, todo mundo acha que ele é um gênio. Leva uma pintura dele para Bangladesh e pergunta o que vão achar. Tudo isso para dizer que os americanos criam a estética deles, da Guggenheim Foundation. Tudo isso para dizer que não existe uma soberana estética à qual todos nós devemos nos curvar e obedecer.

NO ANO PASSADO, SEU NOME TERIA SIDO COGITADO PARA O PRÊMIO NOBEL DA PAZ, COMO RECEBEU A NOTÍCIA?

Não tenho nada com isso (risos). Achei muito simpático, principalmente porque recebi indicações dos cinco continentes. Até na Austrália, que é do outro lado do mundo, recebi cartas de apoio.Pelo que soube, o que ficou faltando foi o apoio de algum Prêmio Nobel. Não tem importância, não me preocupo se vou ganhar ou não neste ano. Mas tenho muito orgulho de ter sido indicado.

E SUA HISTÓRIA COM A QUÍMICA?

Sou engenheiro químico porque meu pai queria que eu fosse doutor e teatro não dava doutorado na época. Tinha uma namorada de quem eu gostava muito e ela foi fazer Química. Fui atrás. Entrei na faculdade e ela não, acabou fazendo Letras. Eu não era o primeiro aluno da sala, mas não era o último. Ficava na média. Mas já esqueci tudo. Só lembro que a fórmula da água é H2O.

TESTAMENTO: O Teatro do Oprimido, de Boal, é uma metodologia cênica que ele desenvolveu nos anos 70 e combina drama e ação social. Poucos dias antes de morrer, o embaixador mundial do teatro pela Unesco entregou à editora Garamond o texto final do seu novo livro, A Estética do Oprimido. Já considerado o testamento artístico de Boal, o livro sintetiza suas principais concepções sobre arte e deve ser publicado ainda em 2009. Boal abre o livro com uma dedicatória: "Sinto sincero respeito por todos aqueles artistas que dedicam suas vidas à sua arte - é seu direito ou condição. Mas prefiro aqueles que dedicam sua arte à vida."

(fonte: Jornal Estado de São Paulo 09/05/2009)

sábado, 2 de maio de 2009

Documentários de Busca



Quatro documentários estão numa pequena mostra no Cine Humberto Mauro. A escolha segue o indicado no título: "documentários de busca". O curioso talvez seja como esse processo de busca é realizado em cada obra, incluindo aí a "guinada subjetiva" (como diria Beatriz Sarlo, em outro contexto) tão em voga e o que vai além: desmedida, surpresa e incorporação. Edíficio Master é uma cidade; Passaporte Hungaro, uma saga; 33, arqueologia; e O Prisioneiro da Grade de ferro, uma população na tentativa do "auto-registro".

Assistam!


No início de maio, com o apoio da Programadora Brasil, o Cine Humberto Mauro apresenta a mostra Documentários de Busca. Foram escolhidos quatro documentários que marcaram o amadurecimento no Brasil, no início do século XXI, de uma forte tendência do documentarismo mundial, onde o universo pessoal do realizador (es) assume papel de destaque. Um Passaporte Húngaro, de Sandra Kogut, registra os processos burocráticos para conquista de um passaporte da mesma nacionalidade de seus avós. Em 33, nos tornamos detetives junto ao realizador Kiko Goiffman, na busca de encontrar sua mãe biológica, que dura exatos trinta e três dias. Já em Edifício Master e O Prisioneiro da Grade de Ferro, o olhar se desloca, a motivação da busca está no outro. Enquanto no primeiro os moradores da famosa residência carioca estão em foco, o segundo revela uma rotina incessante, conformando uma imagem múltipla do presídio, construída pelos próprios detentos. A Programadora Brasil é uma das iniciativas mais contundentes em favor da divulgação do cinema nacional surgidas nos últimos anos. Com mais de 300 títulos em seu acervo, entre curtas, médias e longas metragens, disponíveis em DVD, a distribuidora oferece uma alternativa de programação acessível para locais de exibição sem fins comerciais, como cineclubes e pontos de cultura.


Informações sobre dias e horários no site http://www.fcs.mg.gov.br/

domingo, 26 de abril de 2009

fragmentos

"(...)
Não encontrava graça naquele excesso de música nos finais de semana, pela manhã, em que o primogênito, esquecido das gentilezas, era acometido da tresloucada função de acordar o mundo num estridente mau gosto musical. “Histéricos”, pensava, uns mais que os outros. Em meio à felicidade em modulações desreguladas dos habitantes daquele apartamento, procurava um lugar em que pudesse ficar tranqüilo, sem ser visto e importunado. Tinha problema com a alegria, já que, quase sempre, desencadeava afagos desnecessários, apertos, convites pra passeios fora de hora, ânimos pra estripulias e idéias sobre limpeza que o fazia ficar bem irritado - fora as tentativas malogradas e patéticas de comunicação, num tatibitate que o levava a sentimentos, quase humanos, de compaixão e tédio. Era um gato sistemático, tinha consciência disso e não se importava. Não se importava também de estar encurralado no clichê do “ser gato no mundo”: preguiçoso, temperamental, arredio, um tanto lânguido no viver, irritadiço. Utilizava esses traços, casualmente, quando lhe convinha. Sabia que era mais, que colidia com certas expectativas, mas não se importava com juízos apressados, desde que não lhe incomodassem. (...)"

antigo e com todos os vícios e entusiasmos.



E o Céu ...
O Céu de Suely é um filme que chama atenção pelo modo delicado como conta a sua história. Essa delicadeza no narrar está associada à não intenção do diretor em desenvolver uma grande trama e também à distância que é estabelecida ao que comumente vemos nas abordagens cinematográficas focadas em personagens femininos.
Nessa obra dirigida Karim Ainöuz, não há a explicita convergência com um modelo estereotipado de feminino, mas o cuidado em apresentar uma mulher (Hermina/Suely), para além de julgamentos morais, com seus anseios, dúvidas, perdas e esperanças.
Para essa empreitada, a aridez do espaço, o sertão cearense, espraia-se e contamina vários campos, tais como: a relação entre os personagens, as atitudes e os modos como esses constroem possibilidades de vida satisfatória, a relação com a cidade de Iguatu, lugar de retorno e fuga, e também a linguagem da narrativa cinematográfica.
O filme consegue trabalhar bem com essa escolha que é temática e formal, ao mesmo tempo em que deixa perceber o desejo, que se revela nos interstícios.
Há uma proposta interessante que é a de pouco revelar das cenas, apresentando-as como registro de uma realidade na sua incompletude e fragmentação. Esse caminho, que em um primeiro momento pode levar a uma certa estranheza, expõe a importância da unidade de um bom roteiro e cobra dos espectadores a tarefa de serem co-autores do filme no preenchimento dos espaços em branco.
Sobre esse mesmo aspecto, é importante considerar a bela construção da personagem Hermina, também apresentada em fragmentos, que é movida por paixão e por um desconforto no mundo. E, talvez, o que mais nos encante em uma elaboração que contrasta a crueza e o diáfano seja justamente as possibilidades que a personagem insista em criar, corajosamente e de modo pouco consciente, em um contexto que poucas oportunidades oferecem.
O filme, sem dúvida alguma, apresenta um rigor e vigor cinematográfico, aliando roteiro amarrado e “sugestivo”, uma direção que se apresenta como criadora e que convida o público a participar, fotografia que é tomada pela articulação entre aridez e delicadeza, e um elenco bem preparado que caminha com contundência pela aquela história e que se expõe de modo apaixonante. Enfim, mais um belo trabalho de Ainöuz que, após Madame Satã, inova com esse filme-poema, cuja temática é a busca, ou melhor, a sua possibilidade, definida a partir da paixão e da superação de situações desumanizadoras.