domingo, 11 de abril de 2010

Os Buracos do Espelho - Arnaldo Antunes

o buraco do espelho está fechado

agora eu tenho que ficar aqui

com um olho aberto, outro acorda

dono lado de lá onde eu caí



pro lado de cá não tem acesso

mesmo que me chamem pelo nome

mesmo que admitam meu regresso

toda vez que eu vou a porta some



a janela some na parede


a palavra de água se dissolve

na palavra sede, a boca cede

antes de falar, e não se ouve



já tentei dormir a noite inteira

quatro, cinco, seis da madrugada

vou ficar ali nessa cadeira

uma orelha alerta, outra ligada



o buraco do espelho está fechado

agora eu tenho que ficar agora

fui pelo abandono abandonado

aqui dentro do lado de fora

quarta-feira, 7 de abril de 2010

sábado, 27 de março de 2010

com ele

“não há obra que não indique uma saída para a vida, que não trace um caminho entre as pedras”.
(Gilles Deleuze)

foi lá no blog da isadora isa


mas eu também gosto de crises e de criar com elas.

fantasia de carnaval 2010

Exílio.
Escrita do exílio.
Diáspora. Da diáspora.
Estranhamento.
Não-lugar que se faz em choque.
Como andar? Perdas e ganhos na expressão.
***
Mas, e se não fosse somente a expressão que contasse? Onde fica a vida que não cabe na expressão? E se víssemos freqüentemente que as pontes se desfazem com muita facilidade, que as portas se fecham sem receio, que não há janelas na parede da sala? Pra onde iria? Voltar já não é possível.
***
Outro dia tentei. Não consegui. E é da ordem do inominável a vertigem que paira.
***
Acomodo-me no estranhamento quando só às cinco horas da manha num domingo de Carnaval. Brevemente amanhece e, ao ligar a TV, tudo ainda é alegria já carregada de sono, suor e cansaço. Vislumbro algum desejo por descanso que me traz uma repentina solidariedade. E eu, Clarice Lispector, me vejo aqui mãe dos foliões, zelosa progenitora esperando que voltem pra casa, que bebam água, que se alimentem, renovem a fantasia e voltem pro cortejo pagão que desenha com muitos e tortos pés uma intempestiva esperança (...)

série pequenos espantos

O choro. Eu sozinho e ela chora. Meu gesto rápido e imediato é pegar a mamadeira, a chupeta, carregá-la no colo. Experimento. Experimento? Não sei. Melhor dizer aqui: testo. A origem do choro, penso e elucubro, ao tentar fazê-la dormir. Por que chora, minha pequena, se não tem ainda que tomar nenhuma decisão que lhe tire o chão? Se o abandono, desses que a gente passa ter consciência aos poucos, não lhe abateu? Se a dor do mundo não lhe (...) e quem disse que ela não sente a dor do mundo? Que estupidez a minha. Claro que o mundo taí pra ela e deve doer. Só que deve doer sem que ela possa falar da dor. Será que é pior doer sem palavras? Não sei, mas acho que quando a gente diz sobre algo que dói há uma espécie de conforto e uma esperança de passar (...) de passar a dor. Mas você ainda não pode me dizer, e eu tenho que adivinhar. Adivinhar? A dor? O Choro? Você, minha pequena, que curioso, minha pequena é um Você que chora e tem dor. A sua dor não é minha, nem seu choro. E agora? Não dou conta do meu, mas tenho que dar as mãos pra ela até (...) passar (...) ou até que ela aprenda a falar sobre a dor, o que não é garantia que ela consiga enfrentá-la ou superá-la. Ou até que, mesmo com dor, ela consiga um provisório aconchego aqui nos meus braços. É (...) e tenha o inicial aprendizado que é de provisórios aconchegos que vivemos. Vai passar, já tá passando. E o riso vem à galope, a curiosidade casa com um silêncio suave e eu já tô quase saindo do teste, quase na experiência desse afeto antes recusado pelo excesso de clichês.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Açucenas

Açucenas: não lembro
de nenhum céu que me console.
Só o que leio, a sós,
São os segundos,
sentidos,
São os açucares agudos
Da memória.
O silêncio rasgado azul
De uma bandeira.

( Armando Freitas Filho)

Com vc, Fofito querido, para rasgar os silêncios, escancarar o bocão da vida!

Saudades!

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

primeiro comentário

Um breve ensaio de crítica
“Pequenas histórias de trocas de pernas, peles e olhos nos seus arroubos e arredores” de Anderson Feliciano e Mário Rosa resumem, em seus diálogos rítmicos, o encontro conflitante entre o subjetivo e a realidade cotidiana. Ao fazerem de seus personagens pontes poéticas entre fantasiais e urbanidades, os autores da obra nos felicitam com uma rica oportunidade de pensar sobre o ser poético que somos e, entre todas as identificações que buscamos, o deixamos encostado nas paredes do medo. Medo do outro. Medo da loucura. A dramaturgia cresce com a parceria destes jovens escritores que ousadamente imprimiram em “Pequenas histórias de trocas de pernas, peles e olhos nos seus arroubos e arredores” a delicadeza humana cercada pelos prédios de concreto das cidades grandes e pelas mentes que, como concretos, não se curvam para admirarem a beleza de um desejo, de uma esperança, de “um sonho puro e sem recheio”.
Jéssica da Silveira

sábado, 30 de janeiro de 2010

agora

Agora (a.a)

AGORA QUE AGORA É NUNCA
AGORA POSSO RECUAR
AGORA SINTO MINHA TUMBA
AGORA O PEITO A REBUMBAR
AGORA A ÚLTIMA RESPOSTA
AGORA QUARTOS DE HOSPITAIS
AGORA ABREM UMA PORTA
AGORA NÃO SE CHORA MAIS
AGORA A CHUVA EVAPORA
AGORA AINDA NÃO CHOVEU
AGORA TENHO MAIS MEMÓRIA
AGORA TENHO O QUE FOI MEU
AGORA PASSA A PAISAGEM
AGORA NÃO ME DESPEDI
AGORA COMPRO UMA PASSAGEM
AGORA AINDA ESTOU DAQUI
AGORA SINTO MUITA SEDE
AGORA JÁ É MADRUGADA
AGORA DIANTE DA PAREDE
AGORA FALTA UMA PALAVRA
AGORA O VENTO NO CABELO
AGORA TODA MINHA ROUPA
AGORA VOLTA PRO NOVELO
AGORA A LÍNGUA EM MINHA BOCA
AGORA MEU AVÔ JÁ VIVE
AGORA MEU FILHO NASCEU
AGORA O FILHO QUE NÃO TIVE
AGORA A CRIANÇA SOU EU
AGORA SINTO UM GOSTO DOCE
AGORA VEJO A COR AZUL
AGORA A MÃO DE QUEM ME TROUXE
AGORA É SÓ MEU CORPO NU
AGORA EU NASÇO LÁ DE FORA
AGORA MINHA MÃE É O AR
AGORA EU VIVO NA BARRIGA
AGORA EU BRIGO PRA VOLTAR
AGORA

um dia ...

Um dia sonhei que podia atravessar essa ponte. Sonhei que os passos eram dados com segurança, que minhas pernas não tremiam. Que até podia olhar pra trás, sem medo, nem busca de aprovação, algo como: - vá sim, você merece ser feliz. Um dia sonhei que a decisão não estava sustentada em frágeis bambus, que a força era mantida por um desejo elaborado.
Um dia sonhei.
Mas ainda estou aqui. Sigo devagar, dando voltas. Às vezes estaciono. Em outros momentos percebo que a ampliação dos contornos se dá devagar, quase imperceptível a olho nu. A alegria roça a minha pele, mas, arredia, insiste em firmar o desapego. Eu já não lamento.
Recolhida, em danças que só eu percebo, por se darem em uma esfera íntima e inacessível, ouso movimentos de força que julgava impossíveis. Voltas, deslizes e aberturas compõem quadros sem molduras, cartografias sem limites nesse meu devir-bailarina.
Um dia sonhei.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

dos meus tempos de sambista

Em busca da Homenagem Perdida

Ainda não encontrei a levada que me faça homenagear você
delicadamente
assumidamente
Exposição em larga escala
De um semba candente

Ainda não encontrei a levada que me faça homenagear você
Cuidado nas palavras
Que revelam o desejo de um amor rente

O sentimento de convívio e história
Narrado na língua da gente


Ainda não encontrei a levada que me faça homenagear você
Um tatibitate solene
De elegância sentimental

Que harmonize corpos e dores
alegrias e dissabores

Estridencia adicional

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

lágrimas negras

Na frente do cortejo
O meu beijo
Forte como o aço
Meu abraço
São poços de petróleo
A luz negra dos seus olhos
Lágrimas negras
Caem, saem, dóem

Por entre flores e estrelas
Você usa uma delas como brinco
Pendurada na orelha
Astronauta da saudade
Com a boca toda vermelha
Lágrimas negras
Caem, saem, dóem

São como pedras de moinhos
Que moem, roem, moem
E você baby vai, vem, vai
E você baby vem, vai, vem

Belezas são coisas acesas por dentro
Tristezas são belezas apagadas pelo sofrimento
Lágrimas negras
Caem, saem, doem
(jorge mautner/nelson jacobina)

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

peixes

e pássaros