sábado, 25 de julho de 2009

fragmentos de "Ella nos arroubos e arredores"

de Anderson Feliciano e Mário Rosa
(...)
Campanhia toca. Entra Rosa.
Ella: Oi. Você?
Rosa: Você tem um cigarro?
Ella: Cigarro?
Rosa: É. Cigarro.
Ella: Não. Eu parei de fumar.
(silêncio)
Rosa: Tá frio né?
Ella: Frio?
Rosa: É. Frio.
Ella: Um pouco.
Rosa: Estou te incomodando?
Ella: Incomodando? Não. Gosto disso.
Rosa: Disso o que?
Ella: De (...) deixa pra lá, é que me lembrei do Pluft. Você conhece?
Rosa: Não. O que é?
Ella: Um livro que li quando era bem criança.
Rosa: Não gosto de ler. Prefiro ver novelas. Mas leio revistas, viu. Não sou uma ignorante.
Ella (Desatenta ao comentário de Rosa): Pluft, em determinado momento, pergunta pra sua mãe se gente existe.
Risos.
Rosa: Como assim?
Ella: É que ele é um fantasma. Um fantasma que tem medo de gente. (Silêncio)
Rosa: Você está bem?
Ella: Eu tenho medo de gente. (Silêncio) Melhor mudar de conversa porque você não me entende.
Rosa: Entender o que?
Ella: Vamos mudar de assunto.
Rosa: Falar então de quê?
Ella: Por exemplo, de você.
Rosa: Eu.
Ella: Por que esse espanto? Você não é gente? Gente fala de gente. (Coloca uma música no som)
Rosa: Bobagem!!!
Ella: Essa música é muito bonita, você não acha? (Começa a dançar)
Rosa: Acho. É um pouco triste. Gosto de coisas trist (...)
Ella: É estranho quando a gente dança e não sente a música. Fica tudo meio sem sentido.
Rosa: Eu gosto de coisa triste.
Ella: A gente dança, dança, tenta. Eu não consigo.
Rosa: (Aparentemente triste) Eu acho que eu já vou.
Ella: Espera. Fica mais um pouco. Quer tentar?
Rosa: Eu? O que?
Ella: Dançar.
Rosa: Está tarde.
Ella: Nunca é tarde (...) Cada instante é único. (Puxa Rosa pela mão e começam a dançar). Você tem medo de que?
Rosa: Medo? Eu não tenho medo de nada. Só de uma coisa.
Ella: De que?
Rosa: Ficar louca.
Ella: Como?
Rosa: Deixa pra lá. (Encerra a dança)
Ella: Por que? O que houve com você? (Sem graça) Você quer comer alguma coisa?
Rosa: Não quero incomodar.
Ella: Não incomoda. Ah, tenho algo que você vai gostar.
Ella levanta e sai de cena, volta com uma vasilha cheia de bolinhos.
Ella: Sonhos! A única coisa que tenho aqui em casa para te oferecer são sonhos. Você quer?
Rosa: Não gosto muito de sonhos (...) acho eles sem graça, sem gosto. O que dá um certo gosto é o recheio. Os seus são recheados com que?
Ella: os meus estão sem recheios. Acho eles puros mais gostosos.
Rosa: questão de paladar.
(...)

segunda-feira, 20 de julho de 2009

TEATRO

o teatro tá vivo. o teatro acontece. o teatro se realiza no pensamento, na criação e no que vai além da memória, pois outras criações, outros pensamentos proliferam.

esse mês duas boas impressões:

- Comédia do Trabalho (Companhia do Latão)



- Till, a saga de um herói torto (Grupo Galpão)


(em invertidos olhares):
da retomada do teatro de rua que se envereda pela "cultura popular medieval" para o teatro épico (ou dialéctico) que retoma o potencial crítico ao desvendar "artimanhas" num exercício de ampla criação e comunicação.

quero mais (...)

quarta-feira, 10 de junho de 2009

...

Tatuagem encobre mistérios? Ou melhor, suscita mistérios? O que de fato revela? Se realmente revela. Não seria somente nossa ilimitada imaginação alargando ruas?Novamente ele atrás das persianas. O olhar fecunda vidas alheias, transfigura - em um campo íntimo - modos, entradas e chegadas, afetos, conflitos, transgressões (...). E ali ele permanece: aberto à indefinidas fabulações, casualmente em confronto ao que supõe ser o bloco do real (em sua concreta banalidade).

alunos

Um movimento repentino pra dentro
(recolhimento).

Um estranho desalojamento no contato com vidas que oscilam.
Será que eles resistem?
Até quando?
Para onde eles vão?
O que os precarizam?
O que os potencializam?
Que cartografia é possível desenhar além dos limites traçado a ferro e fogo?
Meninos e meninas que me despertam uma tristeza e uma doce, sim, uma doce ternura.

Mas ainda é possível dançar (...)
E isso eles fazem acariciando o trágico ainda não percebido

nas suas ingenuidades,
nos seus atabalhoados flertes,
na linguagem que engasga
e na esperança manca.

Os meus, o meu, o eu: comunga, lamenta, revolve, chora o mundo onde o que mais se vê ainda é a redundante performance vazia.

Nos molhe, vida!


segunda-feira, 8 de junho de 2009

maré




Para Waly, Calcanhotto, Maravilha e todos que ouviram Maré.


Lembra o mar

E trás ondas nos lábios

Um azul demarca contornos

Acentua traços
Configuração


Canto e gesto executam partituras

E o ressoar se abre para toda delicadeza
Orquestração


Sons e movimentos

Que pedem passagem
Música


O líquido é pretexto
E essência que deságua

Em fértil poema
Palavras. (pra que?)



Que de uso em uso
De quebra em
quebra



Com o
Saber

perder nas


mãos

Encontra a medida. O trecho antítese do excesso. A imagem que sugere e se refaz. Para além da verbo RRa gia.




Mas o poema não acaba.

Desdobra-se no contínuo das tentativas, das (re)colocações, das (re)adequações.



Em (ré – maior) as palavras insistem em desenhar cartografias.
Melodicamente (...)

Fluxo, fluido, fruído.




Abalos tímidos, quase imperceptíveis ... aos ouvidos.



Ampla a paisagem de muitos retratos.
Caleidoscópio a enquadrar fugidias imagens.

sábado, 9 de maio de 2009

Boal



havia discordânica quanto aos métodos?
à ideologização?
à perda da dimensão estética?
perguntas.
mas algo se torna hoje evidente: ele foi, "no seu jogo para atores e não atores", também indiscutivelmente fundamental.

''Todo mundo é melhor do que pensa que é''

Cerca de um mês antes de sua morte, o diretor Augusto Boal concedeu esta entrevista em Paris
Taíssa Stivanin, PARIS

No dia 25 de março, o dramaturgo, diretor e ensaísta Augusto Boal recebeu na sede da Unesco, em Paris, o título de Embaixador Mundial do Teatro. Poucas horas antes, no hall de um hotel na praça da República, na capital francesa, o criador do Teatro do Oprimido concedeu uma de suas últimas entrevistas. Boal, que morreu dia 2, no Rio, aos 78 anos, tinha chegado a Paris um dia antes de nossa conversa. Fui buscá-lo no quarto. Mancando, ele contou que tinha ordens médicas para não deixar o hospital, mas disse que não perderia a oportunidade de receber o prêmio por nada. Se o dramaturgo estava fisicamente tão debilitado, isso só ele sabia. Seu espírito e sua energia continuavam intactos. Bem-humorado, falante, gesticulando muito, e sem pedir nem um copo de água, o dramaturgo conversou sem se cansar. Desse papo, ficou a mensagem que resume sua vida: "Todo mundo pode fazer melhor do que acha que está fazendo." Seu teatro é a descoberta dessa capacidade.

O SR. ACOMPANHA O TRABALHO DO TEATRO DO OPRIMIDO EM PARIS?

Em Paris acompanho pouco. Meu filho, Julian Boal, integra um grupo que se chama Grupo do Teatro do Oprimido. Existem vários lugares na França que fazem o teatro do oprimido. O movimento Planning Familial (Planejamento Familiar) o utiliza há muitas décadas em seu trabalho. As escolas e as ONGs também. Acompanho como posso. No site internacional do Teatro do Oprimido, existem mais de 50 países nomeados e 200 grupos. Mesmo no Brasil, ele está presente em todos os Estados, menos no Amazonas, Pará e Roraima, pois custa muito caro desenvolver um projeto por causa da distância. O volume de trabalho é imenso, na Índia, na África. Quando algum grupo introduz uma técnica diferente, a gente tenta seguir. No mais, a gente aplaude.

O SR. VAI MUITO À ESCANDINÁVIA? COMO O TRABALHO SE DESENVOLVEU LÁ?

Começou na Suécia há 30 anos. Tinha amigos exilados, que nos anos 70 me convidaram para fazer uma oficina. Fui voltando nos anos seguintes. Durante muito anos fui para a Suécia e a Noruega. Mas agora canso muito se pego avião sempre. Meu filho leva o trabalho adiante. O Julian, segundo ele mesmo, faz o mesmo trabalho que eu, mas muito melhor (risos).

ELE ACREDITOU NO POTENCIAL DELE, E ESSA RESPONSABILIDADE É SUA...

Exatamente, você matou a charada. Dizia para o Julian que ele era melhor do que pensava, ele acreditou. E me respondia: "Sou mesmo." Julian trabalha muito no exterior. Na África, na Ásia. Na Índia, existe a Federação Indiana do Teatro do Oprimido. Em 2006, ela reuniu 12 mil pessoas numa praça em Nova Déli. Foi muito lindo de ver, porque 80% eram mulheres, vestidas com seus saris coloridos.Ver aquelas mulheres resolutas, fortes, gritando slogans, cantando hinos sobre teatro, sobre Arte, foi muito bonito. A Arte, afinal, pertence a elas. O Teatro do Oprimido está espalhado por toda a Índia, pelo Paquistão, pelo Sri Lanka. No Sri Lanka, quando houve o tsunami, eles faziam o arco-íris do desejo no campo de refugiados para tentar entender como ficou a cabeça das pessoas depois de um desastre daquelas proporções. É o que que queremos. Criar multiplicadores criativos. Multiplicar um sistema que já existe.O que importa é para quem você faz. Como aplico esse método para essas pessoas, nesse lugar e com esses problemas?

COMO ESTÁ A APLICAÇÃO DO MÉTODO NOS PRESÍDIOS BRASILEIROS?

A cadeia é o único lugar onde temos problemas para trabalhar, por conta de tanta burocracia. É um trabalho que está parado atualmente, mas tivemos experiências maravilhosas. Havia uma prisão no Estado de São Paulo que parecia um leprosário, ninguém chegava perto de ninguém. Conseguimos trazer os prisioneiros para o meio da praça, usando o teatro-fórum, como se fossem cidadãos livres. Eles entraram em cena e contracenaram com os outros. Deu certo. Os presos aceitaram que estavam pagando pelos crimes que cometeram e voltariam a viver em sociedade se fosse possível. Uma vez fizemos uma peça onde um preso contava sua história, trágica. Ele era inocente e estava preso há dois anos porque não sabia como se defender. Durante sua apresentação, coincidentemente, tinha uma juíza na plateia. Espantada, ela prometeu o alvará de soltura dele e cumpriu. Situações como essas, existem muitas. Numa cadeia paulista onde aplicamos o teatro legislativo, por exemplo, conseguimos fazer creches para as detentas que tinham filhos. O problema é a burocracia. Os funcionários do Depem, órgão que administra as cadeias, são impenetráveis. Na cabeça deles não entra nada. Não compreendem que o que está na lei tem de estar subordinado a um bem maior. Sei que a lei deve ser obedecida. Existe uma lei que diz: é proibido pisar na grama. Não quero pisar na grama, porque acho que é uma lei justa. Mas se uma criança está sendo atacada por um cachorro, você tem de pisar na grama, dar um pontapé no cachorro e salvar a criança. Violar a lei às vezes é necessário. Trabalhamos também com o Ministério da Cultura em 16 Estados, e com o Ministério da Saúde, nos Capes (Centros de Atendimento Psicossocial). Tentamos enquadrar o delírio patológico no delírio estético. Afinal, teatro é uma forma de delírio, uma forma de alucinação.Também trabalhamos em comunidades violentas. A violência ocorre pela obtusidade das pessoas. Alguns continuam nesse caminho, mas outros felizmente entendem que o diálogo é a forma soberana da comunicação.NO CONTEXTO

DA GLOBALIZAÇÃO, DA SOCIEDADE DE CONSUMO, O SEU MÉTODO PODE SER APLICADO DA MESMA FORMA QUE HÁ 30 ANOS OU PRECISA SER READAPTADO LEVANDO EM CONSIDERAÇÃO AS MUDANÇAS SOCIAIS?

O Teatro do Oprimido se torna mais útil ainda nesses novos tempos. Ele é o contrário da globalização, faz parte da mundialização. A globalização é uma pirâmide da desigualdade. No topo, ficam os ricos, as pessoas desonestas, responsáveis pelo crash da bolsa e a crise mundial. A globalização é uma fagocitação, esses ladrões todos querem comer os outros. É uma coisa antropofágica. A mundialização não. Se você tem um saber, você tem de espalhar esse saber. Não pode ser aquele sábio que vive no topo de uma montanha. Isso me lembra uma piada mineira. O homem pergunta: "Senhor sábio, o que é a vida?" O sábio responde: "Meu filho, a vida é um rio." "Um rio?", desconfia o homem. O sábio vacila: "Uai, não é não?" Esses velhos sábios não me interessam. Temos de ser generosos e solidários com os outros e deixar que eles usufruam do seu saber.

PODERIA ESCLARECER UM POUCO AS DERIVAÇÕES DO TEATRO DO OPRIMIDO? TEATRO LEGISLATIVO, INVISÍVEL....

O Teatro do Oprimido é uma grande árvore. Essa árvore tem as raízes na ética e na filosofia de humanizar a humanidade. É a nossa base. Depois começam os jogos, para restaurar a capacidade criativa das pessoas. Em seguida, vêm os diversos ramos da árvore, como o teatro invisível, o teatro legislativo, o arco-íris do desejo, que serve para exteriorizar as opressões internalizadas. O mais usado é o teatro-fórum, que significa colocar um problema e discutir teatralmente esse problema. É a forma mais difundida, porque produz resultados mais imediatos. O arco-íris do desejo requer uma reclusão maior, em grupos pequenos. Trata problemas individuais. Todas as formas de teatro são úteis, têm uma função. O sucesso extraordinário desse teatro, no mundo todo, se deve à revelação de que o teatro não é o palco, não são as luzes, não é um texto escrito necessariamente, não é iluminação, não é nada disso. Teatro somos nós. Cada um de nós traz em si mesmo um ator. Nesse momento, por exemplo, estou sendo ator. Estou agindo e ao mesmo tempo sendo espectador. Estou ouvindo o que estou dizendo, minha voz, estou pensando no que vou dizer. Teatro é isso. Você percebe que pode avançar num sentido que não é aquele previsto pela sociedade, tecnicamente e mecanicamente. Você sai da moldagem e passa a ser você mesmo, descobrindo coisas insuspeitadas. Que você é melhor do que você pensa que é. Todo mundo é melhor do que pensa que é. Todo mundo é mais capaz de fazer o que já está fazendo. Meu teatro é a descoberta dessa capacidade.
O QUE AINDA FALTA FAZER?

Já fiz muita coisa e tenho intenção de fazer muitas mais. Estou terminando um livro que se chama As Estéticas do Oprimido. Muita gente fala de diversidade cultural, o que defendo. Mas quando pensa em estética, pensa em uma só. Como ser diverso culturalmente, com uma só estética, se a estética é produto de uma cultura? Por exemplo, aquele pintor norte-americano, Jackson Pollock. Nos Estados Unidos, todo mundo acha que ele é um gênio. Leva uma pintura dele para Bangladesh e pergunta o que vão achar. Tudo isso para dizer que os americanos criam a estética deles, da Guggenheim Foundation. Tudo isso para dizer que não existe uma soberana estética à qual todos nós devemos nos curvar e obedecer.

NO ANO PASSADO, SEU NOME TERIA SIDO COGITADO PARA O PRÊMIO NOBEL DA PAZ, COMO RECEBEU A NOTÍCIA?

Não tenho nada com isso (risos). Achei muito simpático, principalmente porque recebi indicações dos cinco continentes. Até na Austrália, que é do outro lado do mundo, recebi cartas de apoio.Pelo que soube, o que ficou faltando foi o apoio de algum Prêmio Nobel. Não tem importância, não me preocupo se vou ganhar ou não neste ano. Mas tenho muito orgulho de ter sido indicado.

E SUA HISTÓRIA COM A QUÍMICA?

Sou engenheiro químico porque meu pai queria que eu fosse doutor e teatro não dava doutorado na época. Tinha uma namorada de quem eu gostava muito e ela foi fazer Química. Fui atrás. Entrei na faculdade e ela não, acabou fazendo Letras. Eu não era o primeiro aluno da sala, mas não era o último. Ficava na média. Mas já esqueci tudo. Só lembro que a fórmula da água é H2O.

TESTAMENTO: O Teatro do Oprimido, de Boal, é uma metodologia cênica que ele desenvolveu nos anos 70 e combina drama e ação social. Poucos dias antes de morrer, o embaixador mundial do teatro pela Unesco entregou à editora Garamond o texto final do seu novo livro, A Estética do Oprimido. Já considerado o testamento artístico de Boal, o livro sintetiza suas principais concepções sobre arte e deve ser publicado ainda em 2009. Boal abre o livro com uma dedicatória: "Sinto sincero respeito por todos aqueles artistas que dedicam suas vidas à sua arte - é seu direito ou condição. Mas prefiro aqueles que dedicam sua arte à vida."

(fonte: Jornal Estado de São Paulo 09/05/2009)

sábado, 2 de maio de 2009

Documentários de Busca



Quatro documentários estão numa pequena mostra no Cine Humberto Mauro. A escolha segue o indicado no título: "documentários de busca". O curioso talvez seja como esse processo de busca é realizado em cada obra, incluindo aí a "guinada subjetiva" (como diria Beatriz Sarlo, em outro contexto) tão em voga e o que vai além: desmedida, surpresa e incorporação. Edíficio Master é uma cidade; Passaporte Hungaro, uma saga; 33, arqueologia; e O Prisioneiro da Grade de ferro, uma população na tentativa do "auto-registro".

Assistam!


No início de maio, com o apoio da Programadora Brasil, o Cine Humberto Mauro apresenta a mostra Documentários de Busca. Foram escolhidos quatro documentários que marcaram o amadurecimento no Brasil, no início do século XXI, de uma forte tendência do documentarismo mundial, onde o universo pessoal do realizador (es) assume papel de destaque. Um Passaporte Húngaro, de Sandra Kogut, registra os processos burocráticos para conquista de um passaporte da mesma nacionalidade de seus avós. Em 33, nos tornamos detetives junto ao realizador Kiko Goiffman, na busca de encontrar sua mãe biológica, que dura exatos trinta e três dias. Já em Edifício Master e O Prisioneiro da Grade de Ferro, o olhar se desloca, a motivação da busca está no outro. Enquanto no primeiro os moradores da famosa residência carioca estão em foco, o segundo revela uma rotina incessante, conformando uma imagem múltipla do presídio, construída pelos próprios detentos. A Programadora Brasil é uma das iniciativas mais contundentes em favor da divulgação do cinema nacional surgidas nos últimos anos. Com mais de 300 títulos em seu acervo, entre curtas, médias e longas metragens, disponíveis em DVD, a distribuidora oferece uma alternativa de programação acessível para locais de exibição sem fins comerciais, como cineclubes e pontos de cultura.


Informações sobre dias e horários no site http://www.fcs.mg.gov.br/

domingo, 26 de abril de 2009

fragmentos

"(...)
Não encontrava graça naquele excesso de música nos finais de semana, pela manhã, em que o primogênito, esquecido das gentilezas, era acometido da tresloucada função de acordar o mundo num estridente mau gosto musical. “Histéricos”, pensava, uns mais que os outros. Em meio à felicidade em modulações desreguladas dos habitantes daquele apartamento, procurava um lugar em que pudesse ficar tranqüilo, sem ser visto e importunado. Tinha problema com a alegria, já que, quase sempre, desencadeava afagos desnecessários, apertos, convites pra passeios fora de hora, ânimos pra estripulias e idéias sobre limpeza que o fazia ficar bem irritado - fora as tentativas malogradas e patéticas de comunicação, num tatibitate que o levava a sentimentos, quase humanos, de compaixão e tédio. Era um gato sistemático, tinha consciência disso e não se importava. Não se importava também de estar encurralado no clichê do “ser gato no mundo”: preguiçoso, temperamental, arredio, um tanto lânguido no viver, irritadiço. Utilizava esses traços, casualmente, quando lhe convinha. Sabia que era mais, que colidia com certas expectativas, mas não se importava com juízos apressados, desde que não lhe incomodassem. (...)"

antigo e com todos os vícios e entusiasmos.



E o Céu ...
O Céu de Suely é um filme que chama atenção pelo modo delicado como conta a sua história. Essa delicadeza no narrar está associada à não intenção do diretor em desenvolver uma grande trama e também à distância que é estabelecida ao que comumente vemos nas abordagens cinematográficas focadas em personagens femininos.
Nessa obra dirigida Karim Ainöuz, não há a explicita convergência com um modelo estereotipado de feminino, mas o cuidado em apresentar uma mulher (Hermina/Suely), para além de julgamentos morais, com seus anseios, dúvidas, perdas e esperanças.
Para essa empreitada, a aridez do espaço, o sertão cearense, espraia-se e contamina vários campos, tais como: a relação entre os personagens, as atitudes e os modos como esses constroem possibilidades de vida satisfatória, a relação com a cidade de Iguatu, lugar de retorno e fuga, e também a linguagem da narrativa cinematográfica.
O filme consegue trabalhar bem com essa escolha que é temática e formal, ao mesmo tempo em que deixa perceber o desejo, que se revela nos interstícios.
Há uma proposta interessante que é a de pouco revelar das cenas, apresentando-as como registro de uma realidade na sua incompletude e fragmentação. Esse caminho, que em um primeiro momento pode levar a uma certa estranheza, expõe a importância da unidade de um bom roteiro e cobra dos espectadores a tarefa de serem co-autores do filme no preenchimento dos espaços em branco.
Sobre esse mesmo aspecto, é importante considerar a bela construção da personagem Hermina, também apresentada em fragmentos, que é movida por paixão e por um desconforto no mundo. E, talvez, o que mais nos encante em uma elaboração que contrasta a crueza e o diáfano seja justamente as possibilidades que a personagem insista em criar, corajosamente e de modo pouco consciente, em um contexto que poucas oportunidades oferecem.
O filme, sem dúvida alguma, apresenta um rigor e vigor cinematográfico, aliando roteiro amarrado e “sugestivo”, uma direção que se apresenta como criadora e que convida o público a participar, fotografia que é tomada pela articulação entre aridez e delicadeza, e um elenco bem preparado que caminha com contundência pela aquela história e que se expõe de modo apaixonante. Enfim, mais um belo trabalho de Ainöuz que, após Madame Satã, inova com esse filme-poema, cuja temática é a busca, ou melhor, a sua possibilidade, definida a partir da paixão e da superação de situações desumanizadoras.

domingo, 29 de março de 2009

Do amor

Do amor
Não falo do amor romântico, aquelas paixões meladas de tristeza e sofrimento. Relações de dependência e submissão. paixões tristes.
Algumas pessoas confundem isso com amor. Chamam de amor esse querer escravo, e pensam que o amor é alguma coisa que pode ser definida, explicada, entendida, julgada. Pensam que o amor já estava pronto, formatado, inteiro, antes de ser experimentado.
Mas é exatamente o oposto, para mim, que o amor manifesta. A virtude do amor é sua capacidade potencial de ser construído, inventado e modificado. O amor está em movimento eterno, em velocidade infinita. O amor é um móbile. Como fotografá-lo? Como percebê-lo? Como se deixar sê-lo? E como impedir que a imagem sedentária e cansada do amor nos domine? Minha resposta? O amor é o desconhecido.
Mesmo depois de uma vida inteira de amores, o amor será sempre o desconhecido: a força luminosa que ao mesmo tempo cega e nos dá uma nova visão.
A imagem que eu tenho do amor é a de um ser em mutação. O amor quer ser interferido, quer ser violado, quer ser transformado a cada instante. A vida do amor depende dessa interferência. A morte do amor é quando, diante do seu labirinto, decidimos caminhar pela estrada reta. Ele nos oferece seus oceanos de mares revoltos e profundos e nós, preferimos o leito de um rio, com início, meio e fim.
Não, não podemos subestimar o amor. Não podemos castrá-lo. O amor não é orgânico. Não é meu coração que sente o amor, é minha alma que o saboreia. Não é no meu sangue que ele ferve, o amor faz sua fogueira dionisíaca no meu espírito. Sua força se mistura com a minha e nossas pequenas fagulhas ecoam pelo céu como se fossem novas estrelas recém-nascidas.
O amor brilha. Como uma aurora colorida e misteriosa, como um crepúsculo inundado de beleza e despedida, o amor grita seu silêncio e nos dá sua música. Nós dançamos sua felicidade em delírio porque somos o alimento preferido do amor, se estivermos também a devorá-lo.
O amor: eu não o conheço. E é exatamente por isso que o desejo e me jogo do seu abismo, me aventurando ao seu encontro.
A vida só existe quando o amor a navega. Morrer de amor é a substância de que a vida é feita. Ou melhor, só se vive no amor.
E a língua do amor é a língua que eu falo e escuto.

Paulinho Moska, músico e compositor

segunda-feira, 16 de março de 2009

alucinação em madri



A chegada era mais que esperada. Horas de expectativa. Tudo em dia: ações e medidas. Contudo, o emperramento. Barrada. Denegada. O que é isso? A barreira de acesso, a barreira da língua. Espera, espera. Espera. A comunicação cambaleia nos sacolejos da truculência. Sobre a mesa dinheiro, passagens, documentos, ironias. A burocratização atinge o limite (o seu núcleo duro): o vazio, sem lugar para explicações ou justificativas. Portas? Só as que a levem de volta. O tempo se expande, e se esgarça. De repente, o movimento: camburão. Avidez por água, por comida. Espera. Negativa. Renegada. Denegada. Horas e dias em cinzas. Já longe as cores mediterrâneas. Esvai-se o projeto de encontro. Onde estará? Perguntas não encontram respostas. Do mundo não se sabe: distante (incomunicável) ou reduzido às paredes de um lugar nenhum (desfronteirizado). Chora e estranha a sanha sádica dos uniformizados, executores de gélidos silêncios só cortados por enviesados insultos. O humano vai ao rés-do-chão. A civilização do velho continente mostra a sua cara, sua moral, seu contorno, seu medo, sua arrogância. E ela assustada, sozinha.
Novamente o movimento, alinhamento. Marcados como gado contaminado, são levados em grupo. Ela entra eles. Todo cuidado é reservado àqueles que sonharam, planejaram, arquitetaram. Sem conversa, sem desculpa. A indignação revolve corpos afásicos. Está quase. Mais algumas horas. Espera. Vôo confirmado e a entrada, e o retorno, após a acomodação de todos os passageiros com destino ao país que AQUELES ousaram sair. Quem mandou ser hospitaleiro? Ficar de braços abertos por aí? Descompasso ou complexo atávico?
Partiu, deixando sonhos e fomentando amargura.
Fica a impressão de que deu tudo errado, e o pior, hoje ninguém mais tem pudor em esconder.

para um rei assim: sem muita majestade

Não olha nos olhos
Estranha e recua, avesso do outro
E o desconforto se espraia


Seu ritual instaura o rígido -
Rijo o corpo e alma -
Em desenho de expressão saturada


Afirma o silêncio que sentencia mudez

Tédio e monotonia encurralam o Taciturno

À espreita do fim


(O que pode ainda o anzol neste filete forjado na recusa?)

quinta-feira, 12 de março de 2009

de um antigo sarau

Nessa Caixa

Nessa caixa! Mas não encontro a chave certa. O que é isso, ontem foi tão rápido, automático, mãos sensíveis ao toque, objetos em laboriosa participação.
Não é todo dia que a gente tem as engrenagens reveladoras em solidária exposição, não é mesmo?
Bem, mas o que guardo aqui? Nessa Pandora minimalista?
Vocês vão ver.
Aviso logo aos curiosos que não é nada demais.
Mas é especial.
Por que resolvi revelar, apresentar, expor? Não sei.
Mas garanto que está bem distante do exibicionismo.
Acho que me simpatizei com vocês e resolvi comungar. Nossa, a palavra comungar me soa muito católica, dançando no círculo do sagrado, e definitivamente não é esse o sentido da empreitada. Já que o que revelo aqui está na dimensão do corriqueiro, do ordinário da vida, quase trivial não fosse a sua importância, sua potência.
A idéia de preservar esse “alguma coisa” na caixinha é recente. Confesso que a idade pode ter pesado, logo agora que sou um jovem senhor, que me vejo “um novo jovem senhor”.
E também se deve ao fato de que formulei uma pergunta-mola-propulsora-pra-partilhar-intimidades-e-sucitar-encontros que tem me acompanhado, fixa que está na ponta do meu sapato, que é:
o que você guarda no seu baú?
Como quase tudo na vida, essa pergunta se desdobra, numa filiação multiplicadora – perguntas-filhas:
você tem um baú?
sim?
não?
por que?
uma caixinha no fundo da gaveta da cômoda, não?
por que uma pessoa tem/teria um baú?
o que de mais precioso poderia ser guardado em um baú?
guardar?
pra que?

(Curiosidades fora do lugar em giratória especulação.)
Ao falar de caixas, baús, lembrei-me de trechos de um poema que diz, mais ou menos, assim:

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por admirá-la, isto é,
iluminá-la ou ser por ela iluminado.

Esse Antônio Cícero sabe das coisas. E acredito que guardar não é mesmo esconder, não é trancar, mas aquilo que de alguma maneira apreendemos, por ficar, por nos passar, por sorvemos, por nos marcar.
No entanto, por que insisto nos baús? Ou melhor, em sustentar a necessidade de caixas? De querer saber sobre as caixas dos outros e, afirmativamente, desejar mostrar o que guardo?
Perguntas.
Elas não me deixam em paz, pernoitam em sonhos e vigílias.
Não sei se tenho a resposta, mas indícios. E o que guardo aqui quase configura um vestígio.
No fundo, o que motiva essa ânsia talvez esteja ligado à saudade. É isso a Saudade e a intenção de não perder o registro, a lembrança que inevitavelmente se esvai, se apaga.
Como era mesmo?
Tenho saudade de muita coisa, muita gente, e tenho medo. Daí a busca pelo registro fiel, fincado na memória, ou a preocupação em guardar objetos que falem de uma época, evoquem um momento e dêem crédito ao nosso discurso.
Tarefa inglória.
Memória, História, Pessoas e Objetos circulam em movimentos imprevisíveis, indômitos, fugazes. E estão todos, inevitavelmente, atrelados à morte.
E acho que aí reside o indício maior: se não temos saída para o inelutável, o que nos resta?
Mais uma pergunta: o que nos resta?
Ora! Algo que confronte a morte, que seja do seu tamanho, que tenha peito pra afirmar sua Vontade.
E é isso. O que eu guardo aqui nessa Caixa é uma porção da minha vida, da minha ética, da minha qualidade (ainda que precária) de existir.
Guardo aquilo que, por se expandir e me colocar em confronto com o mundo, me vitaliza e pede passagem:
CRIAÇÃO
INVENÇÃO
Pode ser pouco, mas (...)